opta-branco

João Paulo Martins  in E – a Revista do Expresso, 25 Julho 2015

Quando se fala de brancos do Dão, o nome Encruzado vem normalmente em destaque à nossa memória. Há razões para isso, já que a casta se tornou a bandeira da região, aquela que tão bem exprime tudo o que de bom nós esperamos dos brancos do Dão: finesse, elegância de corpo e acidez muito ajustada, quase a passar despercebida mas que depois nos traz um vinho de rara frescura e longevidade.

O Encruzado tem isso tudo mas, se quisermos recuar no tempo, verificamos que é muito difícil encontrar vinhos que sejam varietais de Encruzado. Porquê? Porque nos anos 60 e seguintes, o que mais havia na região era brancos de lote de várias castas e não vinhos varietais.
Nos lotes entravam, por exemplo, a Malvasia Fina, o Arinto, o Bical (localmente conhecido por Borrado das Moscas) e outras que iam morrendo esquecidas e que agora vários produtores em boa hora ressuscitaram. Entre elas está a Uva Cão, provavelmente a principal responsável pela enorme longevidade de alguns brancos do Dão que ainda hoje nos surpreendem, isto à custa de uma acidez que lhe é natural e que costumamos dizer que é “de partir os dentes”.
É assim difícil descobrir vinhos varietais mas é fácil encontrar vinhos de lote que após 15, 20 e 30 anos, se mostram em grande forma. É o caso, provavelmente único, dos brancos velhos das Caves S. João (Bairrada), ainda hoje à disposição de compra para qualquer passante que visite as caves. Têm ainda a vantagem adicional de não irem esgotar tão cedo, uma vez que, de algumas colheitas, existem muitos milhares de garrafas para venda.
A regra, para o enófilo é muito simples: não ter medo de guardar em cave os brancos do Dão e ir provando periodicamente para ver como eles se comportam. Normalmente a primeira surpresa surge aí pelos 5 ou 6 anos, quando os vinhos, ao perderem a fruta mais fresca, começam a ganhar aromas complexos e cada vez mais ricos.
Depois é ir provando uma por ano para entender a direcção que ela vai tomar e não deixar que essa direcção seja “torta”; quando à segunda e depois à terceira garrafa aberta na hora, o vinho se mostra em queda, há então que beber bem mais rápido o stock que tivermos. Para os vinhos velhos, como todos sabemos, não há regras e ao lado de uma excelente, pode estar uma estragada. Assunto de rolhas, se é que me entendem…
O ano de 2014 gerou brancos de grande nível e no Dão isso terá sido particularmente notório, com os vinhos a demonstrarem um grande equilíbrio, dos mais baratos aos mais caros. É daqueles casos em que se pode dizer que a colheita foi mesmo excelente. A actual campanha está a correr muito bem mas… quem se arrisca a dar palpites a esta distância da vindima? Uma coisa é certa: até agora não podia ter corrido melhor; daqui em diante é preciso fezada, como dizia, creio, o Alexandre O’Neill.

 

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Opta branco 2014
Região: Dão
Castas: Encruzado, Malvasia Fina e Cerceal branco
Produtor: Soc. Agríc. Boas Quintas
Enologia: Nuno Cancela de Abreu
Preço: €4,49 (Intermarché)
Bom exemplo de um branco de grande equilíbrio, muito gastronómico e que tem um preço acertadíssimo para a qualidade que apresenta.
Dica: este, mais do que para guardar, é mesmo para beber agora, com pratos delicados.

Munda branco 2013
Região: Dão
Castas: Encruzado
Produtor: Fontes da Cunha
Enologia: Francisco Olazabal
Preço: €12
Branco de guarda, uma vez que ainda está pouco falador. Mas é muito promissor.
Dica: a barrica está aqui muito bem integrada, o vinho é rico e concentrado. Para pratos de peixe nobre, no forno, por exemplo.

Qta. dos Carvalhais Reserva branco 2011
Região: Dão
Castas: Encruzado e Verdelho
Produtor: Sogrape Vinhos
Enologia: Manuel Vieira (à época) e Beatriz Cabral de Almeida
Preço: €15,30
O vinho foi feito em inox mas teve 3 anos de estágio em madeira e daí resultou um vinho cheio, gordo, com uma evolução muito positiva.
Dica: ligue-o com queijos, com pratos de charcutaria ou mesmo carnes pouco temperadas.

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